Diário Teatral da Coluna – Semana 8 – 19/12/2022 a 23/12/2022
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Diário da Coluna
Diário Teatral da Coluna Semana 2 – 07/11/2022 a 13/11/2022 A sala de ensaio, durante um processo coletivo e colaborativo de pesquisa teatral, tem suas alquimias particulares. São instantes efêmeros, experimentos improvisacionais únicos, que acendem poderosos faróis para todo trabalho, criam trilhas provisórias por onde o suor das experimentações cênicas vai correndo, acumulando achados em um movimento lento de precipitação, tanto formal quanto de conteúdo. Esses achados, às vezes, são gigantescos avisos de alerta. Foi o que aconteceu nessa segunda semana de ensaios. As cenas experimentais da primeira semana apresentaram fragmentos de personagens e situações das camadas populares na Rio de Janeiro de 1922, no contexto das convulsões sociais em torno da polêmica eleição de Arthur Bernardes. A música de marchinha de carnaval “Aí seu Mé” apontou um contexto cênico poderoso de ser explorado, talvez na recepção do público antes da peça começar, com esse coro carnavalesco de protesto popular atravessando o saguão, abrindo as portas do teatro para o público invadir a apresentação. Seguindo os experimentos, ainda na semana anterior, improvisamos a cena do Jovem Tenente que, em plena reunião do Clube Militar, despeja toda sua virulência em um discurso acusatório contra os altos oficiais, todos mancomunados em estratégias de corrupção lado a lado com as oligarquias da República Velha. Essa cena dava início as experimentações teatrais mais próximas do contexto da Coluna Prestes, mas ainda de maneira ampla, explorando a gênese do Tenentismo, movimento que iria abalar a História do Brasil radicalmente ao longo de toda década de 1920. A tarefa na semana seguinte – no caso, esta que agora relato – era seguir com as cenas experimentais dos antecedentes históricos diretos do movimento tenentista, começando com o evento considerado seminal para grande parte dos historiadores e historiadoras: o Levante dos 18 do Forte de Copacabana, ocorrido na madrugada de 05 de julho de 1922. O plano dos militares revoltosos era impedir a posse do presidente Arthur Bernardes, eleito de maneira fraudulenta, dentro da dinâmica do voto de cabresto e das comissões verificadores que definiam o marcado jogo eleitoral do período, como acusava os que faziam oposição a Oligarquia do Café com Leite que dominava a Primeira República. Para tanto, diversas guarnições do Exército se sublevariam, entre elas o Forte de Copacabana, a Fortaleza de Santa Cruz, a Academia Militar de Realengo e a Vila Militar. As tropas revoltosas marchariam em conjunto sobre o Palácio do Catete, sede do governo federal, para depor Epitácio Pessoa e declarar Marechal Hermes da Fonseca presidente provisório, para então recontar os votos da eleição. Revisada a apuração eleitoral, a vitória do Nilo Peçanha, candidato da “Reação Republicana”, estaria mais do que garantida, mandando Arhur Bernardes de volta para suas fazendas em Minas Gerais. Para experimentar cenicamente esse acontecimento, foi criada uma Escaleta de Improvisos a partir dos acontecimentos históricos do Levante dos 18 do Forte de Copacabana, partindo das bibliografias estudadas sobre assunto, especialmente as descrições desse evento nos livros “A Coluna Prestes”, de Luiz Maria Veiga (São Paulo: Scipione, 1992), “Uma epopeia brasileira: a Coluna Prestes”, de Anita Leocádia Prestes (São Paulo: Moderna, 1995) e “O Cavaleiro da Esperança”, de Jorge Amado (São Paulo: Companhia das Letras, 2011). Transcrevo abaixo parte dessa escaleta, organizada em duas partes: I. O murmúrio se espalha: “a procissão vai sair” II. O levante estoura A escaleta foi apresentada para o grupo e debatida. A primeira sequência não foi improvisada. Resolvemos investir trabalho cênico na segunda sequência, improvisando a madrugada da tomada do Forte de Copacabana de uma vez só, transitando pelos três movimentos da sequência (cenas a., b., c. e d.). Para incrementar a cena, o compositor e diretor musical do processo criou um arranjo a partir do poema “Os Dezoito do Forte”, publicado anonimamente no jornal Correio da Manhã, periódico antigovernista do Rio de Janeiro, em setembro de 1922 (trecho do poema que foi musicado em anexo). Antes de improvisarmos a cena, ensaiamos a canção, para que fosse possível integrá-la no final da cena. Apesar de algumas turbulências no início do improviso, a cena experimental engatou, e a situação toda aconteceu com bastante potência, alcançando um intenso nível de fervor patriótico e militar no final. O que ligou um imenso alerta: a sequência toda soou ufanista e militaresca, da pior forma possível; em um tempo de bolsonarismo galopante e ascenso de forças a favor de um golpe militar, o improviso gerava uma leitura no mínimo ambígua, um quase libelo pró-intervenção militar, jogando água no moinho alucinado da ultradireita contemporânea. As crises são momentos de excelência em processos de pesquisa teatral. É quando a prova da cena, a materialização cênica de debates e hipóteses até então só teóricos, revela o que se está expressando no palco, que caminho a encenação está tomando (ou pode tomar). Debatemos intensamente o que realizamos com a cena dos 18 do Forte, e da necessidade de angular os acontecimentos da Coluna Prestes radicalmente a contrapelo, de contar os acontecidos históricos do ponto de vista das forças populares. Dar o ponto de vista dos enjeitados da História, buscando representar não apenas o que está presente na narrativa oficial e nas bibliografias, mas, sobretudo, revelar as ausências, o não dito, por meio da nossa encenação. A parte mais potente do desastroso e patriótico improviso dos 18 do Forte foi, sem dúvida, a cena da partida do Soldado que não quer se sacrificar. Essa situação de cena foi inspirada na dramaturgia “Coriolano” de Brecht (Bertolt Brecht – Teatro Completo – vol. 11, São Paulo: Paz e Terra, 1995), peça reescrita pelo dramaturgo alemão a partir do texto teatral original de Shakespeare. Uma das questões de Brecht nessa reescrita era, justamente, encontrar formas de representar as forças populares sem que fossem estereotipadas e unificadas, uma massa de manobra facilmente manipulável pelos personagens poderosos. Em um momento de adesão do coro de populares na revolta, Brecht destaca um personagem do coro com seu filho que resolve não aderir ao movimento, causando um instante de quebra e reflexão no interior da massa. A partida
E está dada largada oficial da nova encenação do Coletivo de Galochas, iniciando os trabalhos do projeto “Coluna Prestes: encruzilhadas da marcha da esperança”, contemplado na 39ª Edição da Lei de Fomento ao Teatro para Cidade de São Paulo! Percorrendo um processo de pesquisa teatral de 7 meses de duração, encenaremos a história da Coluna Prestes, resgatando esse evento muito importante da nossa História, que completa 100 anos em 1924. Um dos compromissos assumidos nesse projeto envolve a escrita de um Diário Teatral da Coluna, realizado através de publicações semanais. Essas publicações servem de registro do processo, contando o dia a dia de trabalho desenvolvido na sala de ensaio, compartilhando as etapas de criação dessa encenação de um tema histórico, a Coluna Prestes, realizada através de um processo coletivo e colaborativo, modo de produção frequentemente utilizado no teatro de grupo. Esse texto é o primeiro registro desse Diário Teatral. A questão central antes do início dos ensaios foi: Como investigar teatralmente a narrativa da Coluna Prestes? Nós, do Coletivo de Galochas, estamos imersos nesse projeto nos últimos anos, desenvolvendo uma pesquisa teórica sobre o tema, estudando a ampla bibliografia em torno da Coluna Prestes, envolvendo o movimento tenentista e a queda da República Velha. Dessa forma, organizamos uma Cronologia Estrutural da Coluna Prestes, dividindo em 8 partes essa jornada, criando um mapa para investigação teatral da sala de ensaio (Anexo I). Essa divisão, no entanto, não expressa o que será a encenação de fato. A primeira etapa da pesquisa parte de uma perspectiva aberta, indefinida, tanto em termos de linguagem teatral como das escolhas dos conteúdos, situações e personagens que serão enfocados ao longo da encenação. Envolve uma rotina de criação de material cênico, realizado através de improvisos temáticos, jogos teatrais e cenas experimentais, partindo de provocações e materiais teóricos. Em um momento seguinte, todo esse material teatral é revisto, transformado, reescrito, em um processo radical de síntese e criação, consolidando a primeira versão da dramaturgia. Mas esse é um momento seguinte. Na primeira etapa da pesquisa, estamos diante de uma arena aberta de investigação e criação de material cênico. A Cronologia Estrutural da Coluna Prestes serve como uma base de apoio, uma forma de percorrermos toda a narrativa dessa saga, descobrindo coletivamente qual acontecimento teatral encenaremos a partir disso. As 8 partes dessa cronologia foram distribuídas, semana a semana, nos 3 primeiros meses de trabalho da sala de ensaio. Assim toda a equipe de criação, especialmente as atrizes e atores do projeto, passam a ter uma previsibilidade do que será investigado nos ensaios, podendo preparar suas próprias provocações de improviso, experimentando em cena situações e personagens que julgam pertinentes. As duas primeiras semanas, já dentro do cronograma de realização do projeto do Fomento, giram em torno da 1ª Parte, os Antecedentes da Coluna Prestes. Esse momento envolve os acontecimentos históricos de 1922, como a eleição e posse de Arthur Bernardes; as conspirações militares; a Revolta dos 18 do Forte de Copacabana; a transferência do jovem Capitão Prestes, envolvido com os revolucionários, para o Rio Grande do Sul. Mas antes de adentrar improvisos e cenas experimentais ligadas diretamente ao contexto histórico da Coluna, decidimos partir de uma perspectiva mais ampla, na tentativa de estabelecer o marco de época, a vida no Brasil na década de 1920. Quem eram as figuras sociais que ocupavam as ruas das cidades nesse fervilhante e revolucionário momento da nossa História, que terminará por derrubar a República Velha? Quais os trabalhos realizados pela população, tanto nos centros urbanos de Rio de Janeiro e São Paulo quanto nos outros territórios do Brasil, amplamente rural? Na primeira semana de ensaio, os atores e atrizes desenvolveram duas ou mais personagens ligadas a sociedade carioca de 1922, realizando cenas experimentais e improvisos com essas figuras. Para criar essa galeria de tipos dessa Rio de Janeiro no início do século XX, partimos da leitura de cronistas do período, especialmente os livros “A Alma Encantadora das Ruas”, de João do Rio, e “Crônicas”, de Lima Barreto. Alguns improvisos que surgiram dessa aventura: · Dois estivadores do porto, organizados no sindicato, brigam pelo ponto de paga do seu Albuquerque. · Uma parteira é presa pela polícia ao ser acusada de praticar um aborto. · Um caçador de gatos realiza seu cotidiano trabalho; esses gatos eram vendidos nos restaurantes da elite como carne de coelho, daí a expressão “tomar gato por lebre”. · A charlatã e cartomante Madame Lili, enquanto engambela mais uma cliente, tem uma premonição real, com um pássaro de fogo anunciando um tempo novo. · Um cocheiro monarquista conversa com sua égua, a Duquesa, relembrando saudoso os tempos do Império. Junto do improviso dessas figuras tipos da sociedade carioca do período, nos ensaios de Música, aprendemos a cantar a marchinha de carnaval “Ai seu Mé”, composta como forma de chiste para o então concorrente a presidência Arthur Bernardes, candidato da oligarquia da República do Café com Leite, amplamente odiado no Rio de Janeiro. Quando Arthur Bernardes chega para assumir a presidência, depois de vencer uma eleição fraudada em cima do Nilo Peçanha (dentro da dinâmica do voto de cabresto), é recebido pela população com um grande ato de repúdio, em que essa marchinha ressoou como hino. Como cena síntese desse movimento, fizemos um improviso em que essas diferentes figuras cariocas tocavam sua rotina em uma cena fragmentada, que apresentava cada um das personagens nos seus afazeres sem relação entre elas (cada uma no seu núcleo), até que Arthur Bernardes é avistado de longe! A população do Rio de Janeiro, revoltada, se une então para enxovalhar o Seu Mé, cantando a marchinha composta em sua homenagem. Outro improviso que surgiu, através da Cena Experimental de uma das atrizes, foi uma cena narrativa de um outro Brasil, também chamado no período de “Brasil profundo”, do encontro de uma menina, no empório de palafita de seu pai e sua mãe, nas margens do Rio Paraná, com o jagunço João Marafiga, que tenta levar sua irmã a força. Era uma cena biográfica, partia das