Diário Teatral da Coluna – Semanas 9 e 10 – 24/12/2022 a 08/01/2023

Diário Teatral da Coluna – Semanas 9 e 10 – 24/12/2022 a 08/01/2023 Nas duas semanas da virada do ano, a última de dezembro/2022 e a primeira de janeiro/2023, organizamos nosso trabalho em torno de rodadas de reflexão do que foi produzido até o momento, dedicando nossos esforços para uma avaliação crítica do material levantado. Cada artista envolvido na pesquisa comentou de maneira aprofundada e detida suas percepções sobre o processo, seus posicionamentos diante da temática da Coluna, os caminhos e descobertas coletivas de linguagem que parecem importantes de serem cultivadas. A ideia era buscar uma sinergia coletiva do material teatral que criamos, um ponto de vista comum, uma estética partilhada.  Esse processo coletivo foi muito importante, marcando um momento de transformação da nossa pesquisa, adensando nossas escolhas poéticas e temáticas em cima do tema da Coluna Prestes. Uma avaliação artístico-política do nosso processo de pesquisa, do nosso cotidiano de trabalho, organizando a próxima jornada que vem pela frente. Avante, Coletivo de Galochas! Que venha o espetáculo “Coluna Prestes: encruzilhadas da marcha da esperança”!  

Diário Teatral da Coluna – Semana 2 – 07/11/2022 a 13/11/2022

Diário Teatral da Coluna   Semana 2 – 07/11/2022 a 13/11/2022 A sala de ensaio, durante um processo coletivo e colaborativo de pesquisa teatral, tem suas alquimias particulares. São instantes efêmeros, experimentos improvisacionais únicos, que acendem poderosos faróis para todo trabalho, criam trilhas provisórias por onde o suor das experimentações cênicas vai correndo, acumulando achados em um movimento lento de precipitação, tanto formal quanto de conteúdo. Esses achados, às vezes, são gigantescos avisos de alerta. Foi o que aconteceu nessa segunda semana de ensaios. As cenas experimentais da primeira semana apresentaram fragmentos de personagens e situações das camadas populares na Rio de Janeiro de 1922, no contexto das convulsões sociais em torno da polêmica eleição de Arthur Bernardes. A música de marchinha de carnaval “Aí seu Mé” apontou um contexto cênico poderoso de ser explorado, talvez na recepção do público antes da peça começar, com esse coro carnavalesco de protesto popular atravessando o saguão, abrindo as portas do teatro para o público invadir a apresentação. Seguindo os experimentos, ainda na semana anterior, improvisamos a cena do Jovem Tenente que, em plena reunião do Clube Militar, despeja toda sua virulência em um discurso acusatório contra os altos oficiais, todos mancomunados em estratégias de corrupção lado a lado com as oligarquias da República Velha. Essa cena dava início as experimentações teatrais mais próximas do contexto da Coluna Prestes, mas ainda de maneira ampla, explorando a gênese do Tenentismo, movimento que iria abalar a História do Brasil radicalmente ao longo de toda década de 1920. A tarefa na semana seguinte – no caso, esta que agora relato – era seguir com as cenas experimentais dos antecedentes históricos diretos do movimento tenentista, começando com o evento considerado seminal para grande parte dos historiadores e historiadoras: o Levante dos 18 do Forte de Copacabana, ocorrido na madrugada de 05 de julho de 1922. O plano dos militares revoltosos era impedir a posse do presidente Arthur Bernardes, eleito de maneira fraudulenta, dentro da dinâmica do voto de cabresto e das comissões verificadores que definiam o marcado jogo eleitoral do período, como acusava os que faziam oposição a Oligarquia do Café com Leite que dominava a Primeira República. Para tanto, diversas guarnições do Exército se sublevariam, entre elas o Forte de Copacabana, a Fortaleza de Santa Cruz, a Academia Militar de Realengo e a Vila Militar. As tropas revoltosas marchariam em conjunto sobre o Palácio do Catete, sede do governo federal, para depor Epitácio Pessoa e declarar Marechal Hermes da Fonseca presidente provisório, para então recontar os votos da eleição. Revisada a apuração eleitoral, a vitória do Nilo Peçanha, candidato da “Reação Republicana”, estaria mais do que garantida, mandando Arhur Bernardes de volta para suas fazendas em Minas Gerais.  Para experimentar cenicamente esse acontecimento, foi criada uma Escaleta de Improvisos a partir dos acontecimentos históricos do Levante dos 18 do Forte de Copacabana, partindo das bibliografias estudadas sobre assunto, especialmente as descrições desse evento nos livros “A Coluna Prestes”, de Luiz Maria Veiga (São Paulo: Scipione, 1992), “Uma epopeia brasileira: a Coluna Prestes”, de Anita Leocádia Prestes (São Paulo: Moderna, 1995) e “O Cavaleiro da Esperança”, de Jorge Amado (São Paulo: Companhia das Letras, 2011). Transcrevo abaixo parte dessa escaleta, organizada em duas partes: I. O murmúrio se espalha: “a procissão vai sair” II. O levante estoura A escaleta foi apresentada para o grupo e debatida. A primeira sequência não foi improvisada. Resolvemos investir trabalho cênico na segunda sequência, improvisando a madrugada da tomada do Forte de Copacabana de uma vez só, transitando pelos três movimentos da sequência (cenas a., b., c. e d.).  Para incrementar a cena, o compositor e diretor musical do processo criou um arranjo a partir do poema “Os Dezoito do Forte”, publicado anonimamente no jornal Correio da Manhã, periódico antigovernista do Rio de Janeiro, em setembro de 1922 (trecho do poema que foi musicado em anexo). Antes de improvisarmos a cena, ensaiamos a canção, para que fosse possível integrá-la no final da cena. Apesar de algumas turbulências no início do improviso, a cena experimental engatou, e a situação toda aconteceu com bastante potência, alcançando um intenso nível de fervor patriótico e militar no final. O que ligou um imenso alerta: a sequência toda soou ufanista e militaresca, da pior forma possível; em um tempo de bolsonarismo galopante e ascenso de forças a favor de um golpe militar, o improviso gerava uma leitura no mínimo ambígua, um quase libelo pró-intervenção militar, jogando água no moinho alucinado da ultradireita contemporânea. As crises são momentos de excelência em processos de pesquisa teatral. É quando a prova da cena, a materialização cênica de debates e hipóteses até então só teóricos, revela o que se está expressando no palco, que caminho a encenação está tomando (ou pode tomar). Debatemos intensamente o que realizamos com a cena dos 18 do Forte, e da necessidade de angular os acontecimentos da Coluna Prestes radicalmente a contrapelo, de contar os acontecidos históricos do ponto de vista das forças populares. Dar o ponto de vista dos enjeitados da História, buscando representar não apenas o que está presente na narrativa oficial e nas bibliografias, mas, sobretudo, revelar as ausências, o não dito, por meio da nossa encenação. A parte mais potente do desastroso e patriótico improviso dos 18 do Forte foi, sem dúvida, a cena da partida do Soldado que não quer se sacrificar. Essa situação de cena foi inspirada na dramaturgia “Coriolano” de Brecht (Bertolt Brecht – Teatro Completo – vol. 11, São Paulo: Paz e Terra, 1995), peça reescrita pelo dramaturgo alemão a partir do texto teatral original de Shakespeare. Uma das questões de Brecht nessa reescrita era, justamente, encontrar formas de representar as forças populares sem que fossem estereotipadas e unificadas, uma massa de manobra facilmente manipulável pelos personagens poderosos. Em um momento de adesão do coro de populares na revolta, Brecht destaca um personagem do coro com seu filho que resolve não aderir ao movimento, causando um instante de quebra e reflexão no interior da massa. A partida

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