Diário da Coluna

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Diário Teatral da Coluna – Semana 18 – 27/02/2023 a 05/03/2023

Diário Teatral da Coluna – Semana 18 – 27/02/2023 a 05/03/2023 Nessa semana, o time de dramaturgia intensificou o trabalho de escrita da peça, enquanto o elenco intensificou o trabalho em torno das oficinas de danças populares. Estamos em um momento de turbulência, de caminhada para solidificação do que será, de fato, a encenação. As escolhas desse momento não são fáceis em processos criativos como este que estamos, coletivo e colaborativo, em que cada artista participante é também criador/criadora. O objetivo é que todo mundo que participa desse processo se reconheça na peça, partilhe e se identifique com o lugar de chegada da encenação. E isso não é nada simples de ser feito de fato. As danças populares seguem como uma aposta para a encenação, embora as entradas e composições a partir desse repertório tenham se transformado muito entre o que era o projeto original e o que a peça está se tornando de fato . Essa é outra constante de criações com esse tipo de dinâmica: os caminhos de concretização da encenação são diversos e ramificados, abrindo trilhas inimagináveis no projeto original. Esse pulsar vivo do trabalho teatral torna tudo fluído, instável, exigindo porosidade criativa constante, coisa não tão simples quando lidamos com uma política pública, como é o caso da Lei de Fomento ao Teatro para a cidade de São Paulo que, por sua natureza de incentivo estatal, precisa de balizas e previsibilidade de realização, apontadas no projeto original. O que empilha demandas: além dos processos criativos, também nessa semana finalizamos o 1º Relatório do Fomento, o que exigiu um esforço imenso, concorrendo com os trabalhos criativos da sala de ensaio, de desenvolvimento da peça. Para fechar esse balaio, realizamos uma atividade intensa no final de semana, muito importante para nosso projeto, a finalização do Ciclo de Palestras, sempre desenvolvidos em torno de dois eixos: “Teatro e História: procedimentos criativos” e a “Coluna Prestes e o Brasil da década de 1920”. O evento contou com a realização de 4 mesas, no sábado e no domingo, com uma mesa de cada eixo por dia, sempre em parceria com a Biblioteca Mario de Andrade, que acolheu a iniciativa de maneira incrível.  No debate sobre Teatro e História, recebemos a Companhia Estudo de Cena, grupo de teatro parceiro da cidade de São Paulo, em uma conversa organizada sob o recorte “Encenar a história: um exercício sobre o presente”, e a dramaturga, performer, atriz e jornalista Mônica Santana, sob o recorte “Arquivo e Repertório: processo de criação do texto Uma Leitura dos Búzios”. As conversas, sempre potente, giraram em torno ter na história e na memória a temática central para um processo de criação. Já nas mesas sobre a Coluna Prestes, tivemos a alegre de receber figuras incríveis. No sábado, contamos com a presença da historiadora e pesquisadora Anita Leocádia Prestes, filha de Olga Benário e Luís Carlos Prestes, sob o título “A Coluna Prestes: a história e suas falsificações”. Já no domingo, fechando o ciclo de palestras, recebemos o comunicador Jones Manoel, com o recorte de “Política em Armas: Coluna Prestes, violência e luta de classes na história brasileira”. Foram realizadas análises aprofundadas da marcha da esperança e seus desdobramentos, refletindo sobre as diferentes formas de contar o que foi a Coluna Prestes, constituindo um campo de disputa em torno desse tema, que exige uma tomada de posição diante das suas muitas apropriações.   Foram encontros instigantes, anunciando um conjunto de forças e continuidades históricas que estão aí, agora, explodindo no tempo presente. A Coluna Prestes relida a contrapelo, angulada como um esforço radical de esperança, um gesto de rebeldia, utopia e coragem, diante de forças imensas, truculentas, gananciosas e desiguais.  Avante! Seguimos com o trabalho criativo até a criação da peça.  

Diário Teatral da Coluna – Semana 16 – 13/02/2023 a 19/02/2023

Diário Teatral da Coluna – Semanas 11 – 09/01/2023 a 15/01/2023 A semana de véspera do carnaval foi um marco no processo, a fronteira de uma etapa importante da pesquisa do nosso projeto. Nas próximas semanas, chega a primeira parte da dramaturgia na sala de ensaio, a próxima etapa da nossa criação. Os ensaios de música, com os encontros de pesquisa e criação vocal, canto coral e canto individual, atreladas ao repertório musical que está sendo criado para a encenação, seguem como um constante esteio na rotina de trabalho. Já temos 6 canções compostas, “Nós vamos invadir o seu quartel”, “Ai seu Mé”, “Palavras”, “Prece triste para uma criança morta”, “Enterro de um soldado”, “Pão da vida”. Outras estão em processo de criação. Esse repertório musical acontece por aproximações temáticas, recortes de assuntos urgentes do tema, sínteses poéticas sobre a Coluna, muito mais do que por “encomendas” advindas de cenas da dramaturgia. As canções possuem um forte caráter épico, carregam sempre uma camada narrativa ampla sobre os temas da Coluna, cantam sínteses poéticas, sensíveis, de questões que são muito profundas em nossos debates. Isso garante uma liberdade criativa para a criação dessas canções, que terminam, na maior parte dos casos, por encontrar uma cena justa em um momento ideal da peça para acontecerem. Tivemos uma primeira oficina de dança, abordando um repertório de ritmos brasileiros pinçados dos Estados que a Coluna Prestes percorreu ao longo de sua marcha, nomeadamente maxixe, catira, xaxado, coco de roda e frevo. Vivenciamos uma experiência delicada com essa oficina, mas também muito instrutiva: a dificuldade de lidar com corpos não normativos nesse tipo de encontro, quando quem conduz as dinâmicas não está preparado para tanto. Essa experiência serviu de alerta e aviso para nosso processo, da importância de adequarmos as oficinas de dança e as coreografias da encenação as atrizes e atores que compõe nosso núcleo artístico de maneira plena, rompendo com os padrões hegemônicos com que os espaços pedagógicos dançantes podem se aprisionar. Como as outras crises que vivemos no processo, também essa abriu espaço para um debate intenso e importante, possibilitando um ajuste de rota na criação da peça, indo de encontro com toda a potência expressiva que o elenco do Coletivo de Galochas carrega. Essa semana também tivemos um motim na sala de ensaio, no melhor dos sentidos, com o elenco intensamente demandando a chegada da dramaturgia da peça. Uma justa demanda: em processos criativos como esse que o Coletivo de Galochas desenvolve, existe uma certa angústia que se acumula nos atores e atrizes durante a fase de pesquisa aberta. A indefinição de personagens e situações, a rotina de improvisos em cima de temas e situações, as experimentações expressivas de movimentação, os laboratórios (muitas vezes caóticos, abertos), geram insegurança para o desenvolvimento da interpretação, que não consegue sedimentar nem acumular escolhas. Com certeza, existe uma pesquisa de interpretação que se realiza de maneira intensa durante essa etapa, apoiada nos improvisos e cenas experimentais, que afina, inclusive, o que será o tom da peça, a forma como acontecerão as personagens e suas relações, as dosagens entre abordagens narrativas, de caráter mais épico, com situações intersubjetivas, de caráter mais dramáticos, as pesquisas formais de expressividade cênica – tudo isso é interpretação, que se materializa em achados concretos, teatro. É justamente dessas investigações que surge matéria teatral – proto-cenas, personagens, situações, falas, gestos, composições no espaço cênico, imagens – que são o primeiro passo da criação da dramaturgia e da encenação. É dessa matéria prima que decantará o texto teatral e as escolhas de composição da peça, as poéticas e sensibilidades que serão a bússola para a criação definitiva de todas as demais áreas de criação – cenografia, figurinos, coreografia, iluminação, sonoplastia. De qualquer forma, existe esse momento em que é preciso sedimentar escolhas, caminhos narrativos, desenvolvimento do material em personagens e situações, dentro de uma escolha poética e encadeamento expressivo geral, uma síntese crítica e criativa do material organizada potencialmente como uma peça de teatro. Nos processos criativos do Coletivo de Galochas, esse material-síntese é a dramaturgia, o texto teatral, que se torna a base para as etapas seguintes do processo criativo. Nesse próximo momento, as pesquisas abertas de improvisos experimentais e de linguagem diminuem, dando espaço para uma pesquisa a partir da dramaturgia, desenvolvendo e desdobrando as possibilidades da encenação a partir desse material – com liberdade, inclusive, de reescrever tudo. Essa porosidade, no entanto, não muda o fato de que ter uma dramaturgia altera profundamente os ensaios. E é essa a fronteira do processo criativo que estamos agora. Então, faremos uma pausa dos encontros práticos na semana do carnaval, para que os dramaturgos possam trabalhar e escrever. A chegada da dramaturgia abrirá uma nova etapa, em que a encenação começa a ganhar sua forma definitiva. Grandes escolhas precisam ser tomadas, a possibilidade de síntese teatral que conseguimos formular desse tema gigantesco que é a Coluna Prestes, com infinitos fios que conectam a história com o tempo presente que estamos imersos, esse presente imediato que é a Coluna Prestes. Essa oportunidade revolucionária de lembrar, na tentativa urgente de resgatar a história, lutar por um passado oprimido. No tempo presente que vivemos, o esquecimento é a condição refém que os espíritos estão submetidos, trancafiados em um agora imenso. Algumas memórias são relegadas ao esquecimento pelos senhores de tudo. Apesar disso, com nossa encenação teatral, lembraremos! Um salto de tigre na memória, um sobrevoo sob os turbulentos anos da década de 1920, relembrando essa que foi a maior marcha revolucionária dessa terra chamada Brasil: a Coluna Prestes. Evento cercado de contradições de todos os tipos, que se relaciona com diferentes formas de dominação e expropriação rasgando os confins do Brasil, passando pelos Estados do Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Tocantins, Maranhão, Ceará, Piauí, Bahia, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Paraíba e Minas Gerais, além de uma rápida passagem pelo território do Paraguai e exílio final na Bolívia. O quadro que vislumbra as e os integrantes da Coluna ao percorrer todos esses lugares

Diário Teatral da Coluna – Semana 15 – 06/02/2023 a 12/02/2023

Diário Teatral da Coluna – Semanas 11 – 06/02/2023 a 12/02/2023 Estamos no meio de muito trabalho, coordenando o desenvolvimento das muitas frentes de criação. A dramaturgia está em franco processo de escrita, com as cenas sendo escritas em um ritmo intenso, com um planejamento de entrega de um primeiro grande bloco de texto para logo depois do carnaval. O projeto da cenografia começa a se consolidar, um cenário cinético, feito de plataformas móveis circulares, rampas e escadas, com árvores cenográficas em carrinhos e um telão curvado, também com rodinhas, explorando a poética de deslocamento que vem orientando parte das investigações das cenas da Coluna Prestes. A vinda do coreografo está planejada para semana que vem, ampliando o repertório expressivo que acumulamos na pesquisa da encenação. Essa semana também contamos com a presença do Lula, o violonista que vai tocar na encenação, em um dos ensaios de música, que seguem sua rotina. O que foi incrível. Em meio a isso tudo, os ensaios com o elenco continuam a todo vapor, articulados com os também intensos encontros do Curso Livre de Coro Cênico. A relação com esse campo expressivo do Coro Cênico é muito profícua. O que é apontado na sala de ensaio é depois desenvolvido com a turma do curso, e vice-e-versa, permitindo um espaço de desenvolvimento genuíno do que poderíamos chamar de uma linguagem do coro cênico. Do que foi experimentado essa semana, vale destacar o movimento de teatro-dança da Travessia do Rio, realizado com uma rede de pesca azul como suporte para a coreografia. Outra das poéticas de travessia, em uma encenação que terá no deslocamento contínuo uma das suas marcas, deslocamento esse que era a chave da sobrevivência e da vitória das tropas da Coluna Prestes. Sobre as cenas experimentais, investigamos as seguintes situações: ·         Onça, a dançarina de maxixe, se aproxima de um dos acampamentos da Coluna Prestes nos arredores de São Luiz Gonzaga (RS). Misteriosa e sedutora, Onça ensina o comandante do acampamento a dançar maxixe e termina exigindo sua entrada para as fileiras da coluna. O comandante a desafia: se fizer uma ligação até o outro contingente das tropas ao norte, depois de um território apinhado de inimigos, e voltar com vida, Onça pode entrar para a Coluna. Onça aceita o desafio, parte na mata com sua habilidade peculiar de se embrenhar por aí. No caminho, engana um soldado inimigo com um cacho de bananas e termina cumprindo sua missão, voltando vitoriosa e conquistando seu lugar nas tropas revolucionárias. Experimentamos a cena algumas vezes, arriscando uma face mais animalizada da personagem Onça. Terminamos por concluir que o mais interessante é justamente o oposto: Onça não ter nada de bicho, mas sim de mulher aguerrida e liberta; faremos a sequência dela em um cabaré, com a Onça dançando como a principal atração da casa, antes de desafiar o capitão da Coluna. ·         Totó Caiado e os soldados assassinados pela Coluna. Essa sequência de improvisos explorou a figura do oligarca de Goiás no período da Coluna Prestes, o coronel trambiqueiro Totó Caiado, representante dos grandes latifundiários da região, sujeito que, a partir da promessa de perseguir os rebeldes, arranca do Governo Federal uma quantia astronômica para armar seus jagunços, conseguindo uniforme e armas para suas tropas. No entanto, Totó Caiado nunca ordena que suas tropas avancem o suficiente para se chocarem de fato com a Coluna, mantendo sempre uma distância segura. Dessa forma, pode roubar os cavalos cansados abandonados pelos revolucionários em sua fuga sempre ligeira, sempre trocados por montarias descansadas e dispostas. Ao descobrirem a estratégia de Totó Caiado, as lideranças da Coluna, nas figuras de Luiz Carlos Prestes e Siqueira Campos, ordenam que os cavalos sejam executados, para não caírem em mãos inimigas. O improviso aconteceu em duas situações. De um lado, improvisamos a celebração da posse do irmão de Totó Caiado como Presidente de Goiás onde, em meio as festividades, Totó Caiado recebe o aviso de que os revolucionários estão em suas terras, começando sua grande orquestração trambiqueira. A outra situação foi justamente a decisão do assassinato dos cavalos, com um vaqueano da região alertando as lideranças da Coluna de que Totó Caiado está roubando os cavalos para revender no leilão na cidade de Goiás, levando um embate entre Prestes e Siqueira sobre a necessidade ou não de matar os cavalos; Siqueira Campos prevalece na discussão, ordenando que os cavalos cansados sejam executados, para horror de um dos soldados, que se recusa a matar o animal. ·         A festa das mulheres. Uma situação de fogão, que eram os menores agrupamentos da Coluna Prestes, feito de 8 a 10 pessoas, que se organizavam em cooperativas autônomas para garantir a alimentação do grupo (que era de responsabilidade de cada soldado). Dois soldados preparam a comida no fogão, quando são surpreendidos pelo retorno do grupo de mulheres, 4 delas, que chegam em festa, bebendo cachaça, celebrando a vida, apesar de tantas adversidades. Cena importante por explorar a situação do fogão em um momento de descontração e alegria, com um improviso contagiante. Esse grupo de mulheres será explorado ao longo da encenação. ·         O Soldado Ferido e o Sargento Professor. Em um acampamento nos arredores de São Luiz Gonzaga (RS), um grupo de revolucionários feridos chega, derrotada da batalha de São Borja (RS). Um sargento do Batalhão Ferroviário, alfabetizado por Prestes, acolhe um soldado ferido, que fica encantado com o fato do Sargento saber juntar as letras. Uma relação profunda e sensível surge entre os dois, o Sargento se dispõe a ser o professor do Soldado. Esse núcleo também será muito explorado na encenação, sendo uma das linhas de relação que acompanhamos ao longo do processo, se desenvolvendo enquanto caminha a Coluna Prestes. ·         As falsas requisições, que explora o campo temático das requisições realizadas pelas tropas revolucionárias e governistas, ações de expropriação de bens com um documento atestando que haveria devolução do que foi confiscado quando o conflito acabasse. Uma tropa em marcha precisa de alimentação, vestimenta, munições, remédios. O abastecimento das tropas é uma permanente

Diário Teatral da Coluna – Semana 14 – 30/01/2023 a 05/02/2023

Diário Teatral da Coluna – Semanas 11 – 09/01/2023 a 15/01/2023 Os ensaios estão se afunilando, o período previsto para as cenas experimentais e dinâmicas de improviso começa a se esgotar. No final de fevereiro, início de março, avançamos para a próxima etapa de trabalho, que envolve parte da dramaturgia escrita, chegada do coreografo, experimentação dos figurinos e cenografia. Esse momento que estamos agora, então, tem que ser aproveitado até a última gota, para que possamos experimentar cenicamente tudo que temos desejo antes das decisões e consolidações criativas. Por conta disso, enfocamos os ensaios justamente nas Cenas Experimentais, explorando os quadros da Coluna Prestes que, intuímos, serão essenciais na encenação da peça, que representam, poética e criticamente, o que julgamos que precisa estar em cena sobre esse acontecimento histórico de proporções dantescas. Fizemos os seguintes improvisos: ·         Chegada dos revolucionários liderados por Prestes na cidade de São Luiz Gonzaga, tomada por distúrbios, imersa no caos, desencadeado pela ação dos tenentes revoltosos em contato com o conflito entre maragatos e chimangos; a cena era conduzida por um vendedor de jornais, que aumentava o preço conforme o interesse das pessoas comuns em compreender o próprio caos em que estava lançadas crescia; o quadro improvisado terminou com a chegada de Prestes, que acerta com o padre da cidade um esforço de pacificação da situação. A preparação dessa cena, bem com todo o dia de ensaio, contou com a luxuosa presença de Amílcar Guidolin, palestrante que participou do nosso ciclo de debates no domingo, e compareceu ao ensaio para auxiliar o grupo. ·         O encontro entre o Coronel Horácio de Matos, senhor incontestável de Lavras Diamantinas (atual Chapada da Diamantina) e o presidente Arthur Bernardes, para negociar a apoio do Coronel aos esforços do Governo Federal para caçar a Coluna Prestes; o coronel não só arranca dinheiro do governo, como também consegue uma patente oficial de coronel (colocado na reserva com direito a aposentadoria), armas e uniformes para seus jagunços, tudo para que a Coluna fosse derrotada. ·         Chegada das tropas governistas em São Luiz Gonzaga, depois da fuga da Coluna Prestes no famoso incidente do Anel de Ferro, em que, pela primeira vez, a guerra de movimento é colocada em prática pelos revolucionários, deixando um contingente inimigo de 14000 soldados sem saber como puderam escapar; a cena era do ponto de vista do comandante das tropas do governo com seus oficiais, depois de tomar uma cidade fantasma, já sem ninguém. ·         O Meteoro Cleto Campello, o tenente comunista que planeja um levante em Recife, entre sequestros de trens, atentados a bombas e muita conspiração; o plano falha por conta de um delator. A cena explorou um expediente épico anunciando quadros rápidos, montando um mosaico da jornada de Cleto Campello, sequência que deve ser retomada na próxima semana.       Além dos agitados ensaios, tivemos o início do Curso Livre de Coro Cênico, contando com a presença de 22 pessoas (selecionadas de uma lista de inscrição com 64 interessadas e interessados). Esse espaço tem uma potência incrível, uma chance para experimentarmos, dentro do processo formativo proposto, as possibilidades expressivas que o Coro Cênico oferece. A turma ficou bastante diversa, o que é outra grande qualidade. Trabalhamos com encontros calcados em dinâmicas iniciais de jogos teatrais coletivos, preparando o terreno para que todos possam caminhar juntos ao longo do processo. No final desse diário, vou colar a lista das dinâmicas que desenvolvemos, assim é possível manter um registro do que foi feito no curso. Dando continuidade ao Ciclo de Palestras, tivemos mais dois encontros nesse fim de semana na Biblioteca Mario de Andrade. Dentro da temática “O Teatro e a História: procedimentos criativos”, tivemos a imensa alegria de receber a dramaturga Ave Terrena, que escolheu como título da sua fala “Uma parte de mim é sobrevivente, outra parte insurgente”. Tivemos uma excelente conversa sobre dramaturgia, história, disputa da memória, corpas insurgentes e uma poética que amarra todos esses fios na cena, pensando o ponto de vista dos procedimentos criativos e afetos que movem a lida com o material histórico. Foi incrível! Já na mesa temática “Coluna Prestes e o Brasil da década de 1920”, recebemos o prof. Marlei Rodrigues da Cunha, que viajou da cidade de Costa Rica (MS) para contar alguns causos e lendas que povoaram os imaginários populares sobre a Coluna Prestes, narrativas descobertas por Marlei ao percorrer alguns dos caminhos trilhados durante a marcha da coluna invicta por MT e GO. A Biblioteca Mario de Andrade nos presentou com uma exposição de livros do acervo escolhidos a partir da temática do nosso ciclo de palestras, um cuidado institucional incrível que merece todos os nossos agradecimentos! Agora fazemos uma pausa no Ciclo de Palestras, por conta do carnaval, retomando com um mini simpósio, que acontecerá no final de semana dos dias 4 e 5 de março/2023. Avante! Que o processo não pode parar, temos muita a fazer.   Curso Livre de Coro Cênico: 1º Encontro: 01/02/2023 0. Conversa 1. Caminhar pelo espaço  > Caminhando com objetivo – Ritmo Coletivo – Não anda em circulo – congela (qualidade da pausa) 2. Boa noite / empurrão 3. Formando duplas/ trios/ quartetos/ etc. Enquanto caminha lado a lado > Formando coro 4. Observador secreto > Uma pessoa / duas pessoas / sempre formando um triângulo 5. Platô > Entrando no comando / entrando livre; Movimento sincronia; Movimento em oposição; Pode ser os dois [Intervalo] 6. Coro-Corifeu (4 coros) > Mov livre a partir da música > Troca corifeu no comando > Troca o corifeu conforme muda a direção do movimento > Formando 2 coros > Formando 1 coro   2º Encontro: 02/02/2023 1. Roda passando palma no tempo > Palma somando 2. Cardume > Construir pose ao chegar 3. Paisagem sonora em roda 4. Deslocamento em coro > Caminhando na contagem de 8 > Caminhando em completa sincronia devagar > Caminhando em completa sincronia rápido 5. Construindo imagem para portar > 8 tempos para construir > Emite um som continuo junto da imagem >

Diário Teatral da Coluna – Semana 13 – 23/01/2023 a 29/01/2023

Diário Teatral da Coluna – Semanas 11 – 23/01/2023 a 29/01/2023 Nessa semana, somando-se aos ensaios práticos, organizamos as inscrições do Curso Livre de Coro Cênico, parte importante do projeto “Coluna Prestes: encruzilhadas da marcha da esperança”. Além de um espaço formativo gratuito voltado à cidade, 12 das pessoas participantes do curso serão escolhidas para integrarem a montagem da peça, formando o Coro da Coluna. Para nossa satisfação, tivemos um número bem elevado de inscrições. Por isso parte dos trabalhos foi voltada justamente para esse imbróglio, selecionar quem das pessoas inscritas participarão do curso, notificando todas e todos, além. O Curso Livre de Coro Cênico terá início na semana seguinte, com dois encontros por semana, de quartas e quintas, na Galeria Olido. Na parte de experimentação das dinâmicas de coro cênico, investimos em um repertorio de ações físicas coreografadas de deslocamento, partindo de uma dinâmica de coro-corifeu. As ações exploradas foram inspiradas nos gestos que os soldados e vivandeiras tinham de realizar para conseguirem garantir a marcha da Coluna Prestes em sua travessia pelo Brasil: abrir picada no mato; atravessar a lama; atravessar o rio; marchar em trilha fechada; marcha em trilha aberta. Depois, essas ações foram experimentadas em um circuito, na busca de coreografar a poética de movimento que marca a encenação das travessias da Coluna e sua tropa. Os jogos de improviso livre giraram em torno de situações corriqueiras que os soldados e vivandeiras da Coluna Prestes passavam durante a marcha, nos momentos em que não estavam engalfinhados em combates com as tropas governistas e os batalhões patrióticos. Cenas como procurar comida no mato (em que surgiu um soldado com dó de matar a caça), lavar as ceroulas depois das batalhas, lidar com as regras chegando para as mulheres, os processos de gravidez indesejada e as ervas abortivas, os animais de estimação levado pelos soldados (com a memorável cabra Soldado). Nas cenas experimentais, exploramos as seguintes situações, levadas à cena: ●        O Ritual da Tia Maria, uma das mulheres da Coluna Prestes que estamos investigando, uma preta velha que integrou a marcha de São Paulo até sua terrível morte em Piancó, que é descrita na literatura como alguém ligada as religiões de matriz africana, que encantava as tropas com suas rezas e mandingas. A cena experimental era justamente uma dessas passagens, em que a Tia Maria faz um ritual para fechar o corpo das tropas antes de uma grande batalha, apoiada em um canto kimbundu, depois de encarar o receio de parte dos soldados com aquele benzimento. Essa é uma cena importante, fruto da pesquisa pormenorizada dos vestígios que sobram das mulheres da Coluna, que certamente estará na montagem final da peça. ●        Miguel Costa e Prestes debatem sobre os rumos da marcha, com Prestes solicitando um livro de Shakespeare para Miguel Costa, defendendo que sem poesia a coluna não anda. ●        Um soldado chega em casa, junto de sua amasiada, que está cozinhando, para dar a notícia de que pretende ingressar nas fileiras da revolução; a mulher, enquanto seu amasiado a ajuda a cozinhar, já sabe de tudo, falou com o comandante, e está decidida a ir junto, decisão essa que seu amasiado não tem força para contestar na dinâmica do casal. ●                   O encontro de duas vivandeiras, uma está pendurando as ceroulas do marido que terminou de levar, enquanto a outra conversa, pedindo ajuda para compreender um bilhete, já que não é letrada; uma desconfiança paira de fundo na conversa das duas, até que é revelada: uma das vivandeiras era na verdade uma espiã governista, desmascarada pela outra, a partir do bilhete. ●          Prestes, acompanhado de um soldado que está aprendendo as maneiras como a Coluna se relaciona com as cidadelas e vilas por onde passa, circula por diferentes paragens tentando requisitar comida e mantimentos para suas tropas, através de 4 encontros significativos: 1. Um casal em um pequeno ranchinho, em miséria e tendo de dar parte da plantação para os donos da terra, na beira da subsistência, que termina oferecendo os dois filhos mais velhos para seguir com a coluna; 2. O mendigo monarquista, que reclama saudoso dos tempos do império; 3. Nas terras do Coronel Leôncio, amigo de Arthur Bernardes, que tenta em vão desafiar Prestes, que o intimida; 4. Seu Januário, homem muito humilde que cava a nesga de terra lhe sobrou com uma colher, e mesmo assim, divide o pouco que tem com a Coluna e seu sonho de revolução. Essa cena foi proposta por uma das atrizes a partir da leitura de entrevistas realizadas com Luiz Carlos Prestes sobre a Coluna. Também nessa semana teve início o Ciclo de Palestras na Biblioteca Mário de Andrade, organizado em dois grandes temas: “O Teatro e a História: procedimentos criativos” e “Coluna Prestes e o Brasil da década de 1920”. Serão 8 encontros, organizados ao longo de três finais de semana. A ideia do ciclo de conversas é dupla: de um lado, convidamos um conjunto de estudiosas e estudiosos sobre o tema da Coluna Prestes para compartilharem conosco esse acúmulo de pesquisas e sínteses sobre esse importante acontecimento da nossa História; do outro, convidamos artistas que já trabalharam nessa intersecção entre teatro, memória e História, para conversarmos sobre procedimentos criativos, processos de construção cênica e desenvolvimento dramatúrgico. Nos dias 28 e 29/01, sábado e domingo respectivamente, abrimos os serviços dessas conversas que, além de garantir um retorno social da nossa pesquisa com esse espaço público de partilha de conhecimento, serviram de autoformação para o grupo, combustível para o processo criativo em curso. E que combustível! Na mesa de sábado, que tinha como tema “Teatro e história no trabalho da Companhia do Latão”, recebemos o diretor e dramaturgo da Cia do Latão, Sérgio de Carvalho, em uma conversa de perspectiva bem obreira, mão-na-massa, uma prosa do ponto de vista produtivo de um teatro crítico e dialético, esse que se propõe um compromisso de rever a História a contrapelo atento ao espanto do tempo presente, retomando a memória para pensar o agora como transformável, desmontável.

Diário Teatral da Coluna – Semana 12 – 16/01/2023 a 22/01/2023

Diário Teatral da Coluna – Semana 12 – 16/01/2023 a 22/01/2023 Diário Teatral da Coluna – Semana 12 – 16/01/2023 a 22/01/2023 No retorno dos ensaios práticos, dedicamos um período generoso para a parte de música, repassando as rotinas de vocalises e o repertório de canções realizadas até aqui no processo. Estamos acumulando composições, conforme investigamos as passagens da Coluna Prestes, e nesse momento estamos com 5 canções prontas.  No momento do ensaio dedicado a pesquisa teatral, começamos com a apresentação e debate coletivo do repertório de cenas realizadas na primeira etapa do processo, partindo da listagem organizada pela encenação (que está compilada no Diário Teatral da Coluna da Semana 11). Essa apresentação permitiu um dimensionamento de todo o trabalho realizado até aqui, relembrando situações de cena, personagens marcantes, eixos temáticos explorados nos improvisos e questões relevantes sobre a Coluna Prestes que desejamos ver na encenação da peça.  Partindo dessa retomada, fizemos um combinado de cenas experimentais que serão trazidas pelo elenco nas próximas semanas, organizadas em dois vetores. De um lado, cada ator ou atriz deve elaborar uma situação de improviso em que representa Luíz Carlos Prestes, investigando com essa cena o que cada teatrista reconhece como mais significativo de toda a história da Coluna, com suas contradições e encruzilhadas. O que, de tudo que experimentamos e estudamos até aqui, pensando as continuidades da Coluna Prestes com o turbulento tempo histórico presente, é importante de estar em cena? Que encontros e acontecidos vivenciou Luiz Carlos Prestes na marcha da Coluna que expressam esse campo de inquietação?  No segundo vetor de cenas experimentais encomendadas para os ensaios seguintes, a provocação partiu de situações icônicas da marcha da Coluna Prestes, momentos que, durante os estudos teóricos, condensam contradições e acontecimentos significativos para a peça, que expressam as questões que temos debatido na sala de ensaio. Repertoriamos as seguintes passagens, que serão realizadas como cenas experimentais: a Batalha de Piancó e a traição do Padre Arístides; o tenente comunista Cleto Campelo e seu fracassado levante revolucionário em Recife (entregue por um traidor); o encontro da Coluna Prestes com o bando de Lampião; a noite em que a Coluna acampou nas terras de Canudos; a chegada da vivandeira Onça em meio a tropa de soldados; o ritual da Tia Maria para fechar o corpo das tropas antes do combate; o coronel Horácio de Matos e seu império em Lavras de Diamantina (atual Chapada da Diamantina).  Seguindo o trabalho dos demais ensaios dessa semana, realizamos a dinâmica cênica de dança-teatro da Luta das Facas, retomando as investigações sobre as poéticas de batalha e deslocamento que farão parte da encenação. Também retomamos as dinâmicas de coro cênico portando imagem, explorando a situação do bombardeio terrificante. Além disso, parte das cenas encomendadas foram trazidas pelo elenco, realizadas no ensaio. O repertório de situações exploradas foi grande:    • A dinâmica de requisição da Coluna Prestes diante de dois contextos diferentes, em que Luiz Carlos Prestes fica frente a frente com um fazendeiro rico, de um lado, e com a Tia Anastácia, uma camponesa humilde, de outro.  • Um grupo de soldados famintos, exaustos de comer manga, encontram dois soldados feridos que se perderam da Coluna.  • O massacre de Piancó, em que a crueldade contraditória das tropas da Coluna Prestes se evidencia, com uma turba em fúria torturando o Padre Coronal Arístides, até que um dos soldados irrompe em crise diante do que estão fazendo com um homem de Deus (“Deus não escolhe lado na guerra”, “Deus pratica o perdão”). • A conversa de dois conhecidos em uma bodega no interior do Brasil, um deles acaba de entrar para um Batalhão Patriótico (tropa de civis organizada pelos oligarcas de cada Estado, a mando do Governo Federal, para caçar a Coluna Prestes), e o outro, de maneira franca e direta, questiona a escolha do amigo, desmontando as certezas de integrar o Batalhão, evidenciando a miséria, a desigualdade, o analfabetismo de que são vitimados, a mando do oligarca da região. • A figura do coronel Horácio de Matos foi explorada em um monólogo realizada por uma das atrizes, dentro de uma dinâmica de cena confessional, em que a personagem se apresenta para o público e narra sua história.   Também lemos uma das dramaturgias experimentais escritas no processo, a cena da Reunião do QG Revolucionário de São Paulo na Estação da Luz, na busca de como realizar as cenas de reunião dos altos-oficiais que decidiam os rumos da Coluna Prestes, situação recorrente, e importante, ao longo de toda a marcha.  As cenas investigadas serão retomadas nas próximas semanas, que serão dedicadas justamente a etapa da Coluna em marcha pelo chamado Brasil Profundo. Voltamos os ensaios com tudo! Seguimos, até a estreia.   

Diário Teatral da Coluna – Semanas 9 e 10 – 24/12/2022 a 08/01/2023

Diário Teatral da Coluna – Semanas 9 e 10 – 24/12/2022 a 08/01/2023 Nas duas semanas da virada do ano, a última de dezembro/2022 e a primeira de janeiro/2023, organizamos nosso trabalho em torno de rodadas de reflexão do que foi produzido até o momento, dedicando nossos esforços para uma avaliação crítica do material levantado. Cada artista envolvido na pesquisa comentou de maneira aprofundada e detida suas percepções sobre o processo, seus posicionamentos diante da temática da Coluna, os caminhos e descobertas coletivas de linguagem que parecem importantes de serem cultivadas. A ideia era buscar uma sinergia coletiva do material teatral que criamos, um ponto de vista comum, uma estética partilhada.  Esse processo coletivo foi muito importante, marcando um momento de transformação da nossa pesquisa, adensando nossas escolhas poéticas e temáticas em cima do tema da Coluna Prestes. Uma avaliação artístico-política do nosso processo de pesquisa, do nosso cotidiano de trabalho, organizando a próxima jornada que vem pela frente. Avante, Coletivo de Galochas! Que venha o espetáculo “Coluna Prestes: encruzilhadas da marcha da esperança”!  

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